Eu me lembro da primeira vez em que li Clarice Lispector. O texto estava no material didático do Objetivo ou do Positivo, isso lá na terceira ou quarta série, era Felicidade Clandestina. O trecho escolhido daquele conto me seguiu por anos na memória. Posso dizer que vivi várias felicidades na vida, mas nunca uma que eu quisesse viver como a deste conto, de guardar para viver depois e reencontrar por acaso, com aquele sabor doce, acido, mas muito mais doce. Talvez, quando eu tiver filhos, sinta isso. Não sei, ser mãe não é uma prioridade. Tenho, sim, vários momentos que vivi nesses 28 anos e que queria guardá-los frescos na memória, a ponto de revivê-los.
Eu sei que viver novamente esses momentos nunca terá o mesmo sabor, assim como provar Coca-Cola pela primeira vez é diferente de tomá-la pela primeira vez em cinco anos. A previsibilidade do que irá acontecer já retira a unicidade do momento e não o tornará inesquecível como o anterior. Querer voltar ao passado para revivê-lo é querer dar murro em ponta de faca: doloroso e inútil.
O ato de "colecionar" esses pequenos momentos torna a dura realidade mais palpável e até mesmo algo prazeroso de ser vivido. Os momentos felizes se tornam mais prazerosos com aquele gosto agridoce — o de só poderem ser vividos uma vez em sua íntegra magnitude.
