Ao contrário da escrita acadêmica, a literatura não exige que você cite referências constantemente, indicando metodicamente quem, quando e onde determinada ideia foi mencionada. Na literatura, as referências estão lá, incorporadas à obra, como parte intrínseca dela. Cabe ao leitor colher as sementes dessas referências, num trabalho de descoberta e interpretação.
Essa mesma dinâmica das referências escondidas transcende os textos. Um termo que faz morada em mim desde que o ouvi é o de “aparato cultural”. Conheci essa expressão em 2017, durante uma aula de Fundamentos da Linguagem Visual no curso de Artes Visuais. O objetivo da professora ao citar tal termo era o de ensinar um grupo de calouros como analisar uma imagem, identificando as possíveis referências que o artista utilizou para compor a obra.
Refletindo sobre essa construção de sentidos, lembrei das colchas de retalhos que minha avó fazia. Eram feitas de tecidos que, por vezes, não combinavam entre si, mas que eu reconhecia em casas de outros parentes, com formas e funções diferentes. Ali, havia uma narrativa criada pela minha avó através daqueles retalhos. Uma narrativa as quais as referencias não estao claras para todos naquela simples colcha que cobria o leito da cama do quarto em frente à sala, uma vez que era necessário frequentar o ambiente familiar vários membros daquela família.
Isso me fez lembrar das vezes em que me deparei com Proust. Nunca li Proust, mas suas descrições sensoriais em Em Busca do Tempo Perdido servem tanto para inspirar um perfumista na marca Oui quanto para embasar Deleuze refletir sobre a mutiplicidade do autor. Conheço Proust indiretamente, sem tê-lo lido, e só a mim cabe decidir quantos retalhos dele farão parte da minha colcha. Afinal, é isso que é construir um aparato cultural: o encontro com o novo e os tantos outros lugares em que posso reencontrá-lo.
