Ao contrário da escrita acadêmica, a literatura não exige que você cite referências constantemente, indicando metodicamente quem, quando e onde foram mencionadas. Na literatura, as referências estão lá, incorporadas à obra, como parte intrínseca dela. Cabe ao leitor colher as sementes dessas referências, num trabalho de descoberta e interpretação.
Um termo que faz morada em mim desde que o ouvi é o de “aparato cultural”. Conheci essa expressão em 2017, durante uma aula de Fundamentos da Linguagem Visual no curso de Artes Visuais. O objetivo da professora ao citar tal termo era o de ensinar um grupo de calouros como analisar uma imagem, identificando as possíveis referências que o artista utilizou para compor a obra.
Refletindo sobre essa construção de sentidos, lembrei-me das colchas de retalhos que minha avó fazia. Eram feitas de tecidos que, por vezes, não combinavam entre si, mas que eu reconhecia em casas de outros parentes, com formas e funções diferentes. Ali tinha uma narrativa criada pela minha avó, através daqueles retalhos. Nem todos, é claro, seriam capazes de conhecer todas a referências espalhadas naquela simples colcha que cobria o leito da cama do quarto em frente a sala, uma vez que era necessário conhecer varios membros daquela familia.
Isso me fez lembrar das vezes que vi Proust, nunca li Proust, mas suas descrições sensoriais em Em Busca do Tempo Perdido servem tanto para inspirar um perfumista na marca Oui quanto para embasar Jorge Larrosa em suas reflexões sobre as múltiplas dimensões do aprendizado. Conheço Proust indiretamente, sem tê-lo lido, e só a mim cabe decidir quantos retalhos dele farão parte da minha colcha, afinal é isso que é construir um aparato cultural, o encontro com o novo e emm quantos outros lugares posso o reencontrar.
